sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Dezesseis anos era a idade que tinha, quando em 1976, deixou a pequena cidade onde morava com seus pais há dez anos, para correr atrás de algo, não diria sonho, porque não havia sonho, apenas a vontade de sair daquela cidadezinha sem definição plausível, lembra apenas que a vontade de sair era como uma necessidade, era quase uma fuga, um deixar para trás, arrancar da memória os anos ali vividos, como se pudesse raspar da pele o vermelho daquele pó interiorano, impregnado em cada poro e substituí-lo pela fuligem preta e urbana da capital! Da viagem/fuga, lembra cada detalhe, quando, por exemplo, na madrugada, duas horas, o ônibus já rodando há mais de três e com cinco, ainda, pela frente, os pensamentos transmutaram-se e PANE. Recém havia comprado um Long Play (nada mais nada menos que o velho disco de vinil, forma que se ouvia música no século passado) e que fazia dele o mais novo fã de “música brasileira” e de um certo Gilberto Gil e sua Refazenda!

“Abacateiro,

acataremos teu ato,

nós também somos do mato,

como o pato e o leão,

aguardaremos,

brincaremos no regato,

até que nos tragam frutos,

teu amor,

teu coração”!

O disco inteiro rodava em sua memória musical, pois não havia, à época, nenhum dispositivo individual para ouvir música, tempos depois, foi inventado um toca fitas pequeno, com fones de ouvido, para redenção dos aficionados, chamava-se Walkman, na seqüência apareceu o Discman, junto com o CD, mas isso é história e o final vocês a conhecem bem...!
O ônibus sacolejava nas estradas de trinta e três anos atrás, Joaquim estava só, indo embora para o mundo e para a fumaça embaçada do futuro, por falar em fumaça, era quase impossível enxergar o companheiro do lado, tamanha a densidade dela, no ônibus, era tão densa que poderia cortar-se com, com, com... sei lá, com o quê, já foram usadas todas as metáforas existentes para cortar o ar! No caso, ela provinha dos cigarros que todos os passageiros faziam questão de fumar, mas, além da fumarada, uma presença não saía de sua mente, ouvia a voz, via os grandes olhos azuis (como eram azuis, os olhos de todas as meninas daquela terra), sentia a boca na sua, pedindo para não ir. Mas, sobretudo, sentia o cheiro, de almíscar selvagem, daquilo que imaginava ser liberdade! Era ditadura, época de pessoas desaparecidas, de aulas obrigatórias de Moral e Cívica, de presidentes generais, impostos. Sua irmã mais velha viajara, às pressas, para o Chile e ele achava que era turismo... Todos tinham segredos, o dele, naquele momento, era fugir! Homero, um dos poucos amigos que ousava ter cabelo comprido, apresentou-os ao primeiro baseado, na praça fumou abraçado a ela, bebendo gim com tônica e ouvindo rock a todo o volume, todo o volume que um gravador cassete, a pilhas, podia!
- Acho que aquele momento eternizou-se nas pedras brancas de Carrara, que enfeavam e, provavelmente, ainda enfeiam, o anfiteatro inacabado da Praça da República! Pensou ele.
O ônibus parou numa obscura estação, sabe-se lá onde, desceu para comer um pastel e tomar uma coca, (adorava pastel e croquete de rodoviária)! Ainda faltavam quatro horas para o destino e ele viajando, dentro da viajem, se deparava com as incongruências geográficas do país, estava viajando dentro do estado, na pontinha do sul, do frio sul, desmensuradamente longe da civilização, já havia percorrido mais de trezentos quilômetros e simplesmente não havia saído de lugar algum! Naquele instante, naquela parada, ainda a sentia, aquela dos olhos azuis! Será que tinha voltado sozinha para casa ou estavam, todos, na praça bebendo, fumando e rindo. Teria lido a poesia que havia deixado para ela, escrita em papel seda, com sua acanhada letra pequena e trêmula?

Olhou o céu, a noite era tão escura que não viu estrelas em sua animação! Com espasmos, não de frio, beijou, qual fiel beija imagem da virgem, a fotografia três por quatro, que carregava na carteira, no bolso esquerdo traseiro, da sua azul e desbotada calça Lee (uma espécie de amuleto, pois não existia “índigo blues”, no Brasil, ele tinha uma Lee Americana, que uma amiga, madrinha, tinha trazido, de Orlando).

Sentiu, então, a presença dela por inteiro, não em pensamento, mas dentro de si, como um grito abafado, uma lágrima silenciosa, um tiro destroçando todo a fortaleza sonhada! Cinco horas de viagem e ele já não lembrava a cor do vestido que ela estava na despedida, do abraço que se ia! A memória parecia embotada e o vestido, junto com o belo corpo, desaparecia qual sépia imitando fotografia antiga! Fechou os olhos e nem lembra se respirou, morreu por algum tempo, sonhou com a mãe, no enterro de sua avó, explicando-lhe que os mortos viravam estrelas! Sentiu assustado, o ar da manhã e o sol batendo tímido na lataria amarela e azul do ônibus, sentiu um raio sem trovão, só o clarão. Abriu de vez a janela e o ar gélido da madrugada trocou de lugar com o enfumaçado e quente hálito do interior da condução, aspirou profundamente os vapores de Porto Alegre, viu as ruas semi-vazias, recém retomando a vida adormecida, desceu melancólico, pegou sua mala e em algum ponto, entre o ônibus e o táxi, esqueceu, por completo, dela!

Parou na Rua Felipe Camarão e premeu o interfone (nunca tinha visto um) e depois de instantes seculares, ouviu a voz do Beto, ainda rouco. Como a grana era quase nada, estava indo morar com um pessoal “cabeça”, que tinham vindo da mesma aldeia sua, alguns anos antes. Eram três irmãos, um fazia engenharia e filosofia, o outro arquitetura e filosofia e a menina, história e filosofia, na Universidade Federal! Os rapazes usavam barbas enormes (ruivas) e cabelos maiores ainda, vestiam-se, basicamente de calça jeans e camisetas e eram contra o governo! Pela primeira vez, via, ouvia e conversava com que abertamente dizia que era contra aquele governo, aliás, não chamava de governo e sim de ditadura, foi ouvindo!

Teve, em poucos meses, um curso diário de história, filosofia, sociologia e política! Clareou-se, então, muita coisa que não entendia e firmou, nele, um norte.

“Apesar de você

amanhã há de ser outro dia.

Eu pergunto a você onde vai se esconder

Da enorme euforia?

Como vai proibir

Quando o galo insistir em cantar?

Água nova brotando

E a gente se amando sem parar.”

Neste ritmo, intercalado por gritos de “abaixo a ditadura” participou, ainda em mil novecentos e setenta e seis, de seu primeiro ato público engajado politicamente, um ato pela abertura política! Em frente ao prédio da Faculdade de Filosofia da UFRGS, sentavam ao chão e cobriam a cabeça, quando a imprensa e “os infiltrados” agentes do temível DOPS fotografavam os participantes. Lembra com estremo realismo, tudo que passou aqueles dias, ouve o burburinho dos participantes e o bater das ferraduras dos cavalos da Brigada, no asfalto! Logo depois do ato, um chopinho no Alaska e discussões acaloradas sobre os discursos, sobre os policiais inflitrados, sobre a repercussão.

Ele começara a mudar, realmente, a sentir-se incomodado com o mundo em que vivia, há muito tempo, a urbe onde morara anterior e interiormente era que lhe deixara recados nada atrativos. Sentia-se diferente dos outros, mesmo dos amigos de turma, queria mais do Universo, do que o que se apresentava lá e que vivia nitidamente sem resposta, em seu coração. Por isso a pressa de ir embora! Mas, ainda não se sentia a vontade, parece que estava num estágio entre o que os outros queriam e o que ele pensava. Um rito de passagem. Todas as civilizações têm seus rituais de passagem para a idade adulta. Parece que esta passagem vem acontecendo cada vez mais tarde, em nossa cultura. Em todo caso, perto dos dezoito anos era, para a geração de Joaquim, a hora de buscar um, para usar palavreado da época, “lugar ao sol”.

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segunda-feira, 9 de novembro de 2009

I Parte - a curvatura do mundo

Hoje, dezesseis de outubro de mil novecentos e oitenta e um, é o dia do casamento de Joaquim Kehrwald Silva da Silva, são dez horas da manhã e ele ainda não acordou, provavelmente por conta da bebedeira que tomou, com amigos, em sua festa de despedida de solteiro, a carraspana foi tamanha, que ele está a sono solto, em um lugar desconhecido, num pequeno catre, vestido de mulher, molambo, barbudo e fétido, um fio de baba branca e espessa escorre de sua boca, fixando-se em seu rosto e no travesseiro, tornando sua aparência ainda mais nauseabunda e patética.

Ele tem apenas vinte e um anos e acredita ser fruto desta pequena vivência, não imagina, que sua história é paralela a da humanidade e que seu ser é fruto de milhares de anos. Seu nome, por exemplo, advém do caminho percorrido pelos seus mais recentes ancestrais, que percorreram praticamente toda a história da colonização do país:

O prenome Joaquim, de velha herança portuguesa, é, muito provavelmente, proveniente de ancestrais tão antigos que, há muito, já se desligaram da árvore genealógica original, formando apêndices sem ligação com nada, como frutos podres, caídos dos encorpados galhos, sem história, sem passado nem futuro, mas que em seu primórdio português, era o “designado por Deus”, derivado do hebraico, da origem do mundo.

Kehrwald, apesar de parecer sobrenome alemão, é de origem holandesa, vindo direto da antiga Rotterdam, Joost van den Kehrwald, poeta, admirador de Erasmo e, igualmente humanista, mantinha também a característica de escrever em Latim e não em sua própria língua, acompanhou Mauricio de Nassau, no intuito de administrar as conquistas holandesas no Brasil, tendo, segundo relatos orais, abandonado a missão, tão logo pisou em terra firme e sozinho, citando por inteiro o Elogio da Loucura, que sabia de cor,
“...Os poetas formam uma raça independente, constantemente aplicada em seduzir os ouvidos dos loucos com ninharias e fábulas completamente ridículas.
Da mesma farinha são os escritores, que aspiram à fama imortal com a publicação de seus livros...O supra-sumo é cumularem-se de elogios recíprocos em epístolas e peças em versos.
O escritor, sob meus auspícios, desfruta um feliz delírio, e sem fadiga deixa fluir de sua pena tudo o que lhe passa pela cabeça, sabendo, aliás, que quanto mais fúteis forem suas futilidades, mais aplausos recolherá. Sempre é o mais inepto que encontra mais admiradores...”

descido até a foz do São Francisco, onde tornou-se uma espécie de pajé, entre os poderosos Tubinambás, após ter curado de uma tosse intermitente, cumulada com febre e delírios, uma jovem índia, pequena e feia, com uma infusão de folhas e depois de ter conseguido predizer com exatidão a época de chuvas. Migrou com os indígenas e então, sempre acompanhando-os, estabeleceu-se perto do rio São Mateus ou rio Cricarê na região onde hoje fica o Espírito Santo, juntamente com a índia Tupiniquim, que curara, por quem se apaixonara e com a qual teve diversos filhos, todos batizados na tradição da Igreja Luterana, que ele tentava, propagar pelos trópicos. Teve tamanho poder que um de seus fihos, fez o caminho inverso e foi estudar na Europa, em Rotterdam, para onde foi, levando papagaios, cocares, penas e uma carta, escrita pelo pai, em forma de poesia, aos seus tios, solicitando hospedagem e auxílio nos estudos, retornou ao Brasil, depois de alguns anos e fixou residência na região de Laguna, onde havia ganhado umas terras, do donatário da capitania de Santana, Dom Pero Lopes de Souza, que conhecera, através do filho deste, companheiro de estudos, em Paris. Seguindo o exemplo do pai, casou-se com uma índia, esta, de origem Caiouás – Guarani, vinda da Argentina.

O sobrenome Silva percorreu caminho diverso, mas trouxe em seu bojo, o sangue índio, o negro, o português e neste caso, o mouro, da época da invasão, na Peninsula Ibérica. Primeiro, o Silva português, descendente da irmã de Guterre Aldereta da Silva , filho primogênito de Dom Peladio Guterres, governador de Alva e neto de Dom Guterres Pais. Guterre que era o senhor da Torre da Silva, em Alderete, lutou na tomada de Coimbra, junto com Dom Fernando I, rei de Castela, e, por isso, passou a ser conselheiro do reino, alcaide-mór do castelo de Santa Eulália, senhor de Alderete e do Porto da Figueira. Dona Costança ou Comstamça, irmã de Guterre, apaixonou-se, durante a invasão moura, por um irmão do segundo vice-rei mouro na Península Ibérica Adbul-el Azziz, chamado Abduel. Os dois fugiram para o norte de Portugal, conhecida como Alto trás-os-montes e, tendo se casado na fé católica, ele convertido, acabou adotando o sobrenome de sua amada Constança. Séculos depois, já no Brasil, um descendente destes Silva, casou-se, com uma índia Potiguara, da terra de Acajutibiró, que segundo a tradição, tornou-se Silva, também.

Mais um século e outro descendente destes Silva, enamorado por uma negra de descendência Malinké, nascida em Miniambaladougou, na atual Guiné, reconhece a paternidade dos cinco filhos desta e acrescenta-lhes o da Silva, como sobrenome. Por fim, já no século XX e fruto desta intrincada cadeia de relacionamentos, oficiais ou não, nasce então, Joaquim Keharwald Silva da Silva, brasileiro, neto por parte de pai, de fazendeiros donos de sesmaria, perto da divisa Santa Catarina e Rio Grande do Sul, nos Campos de Cima da Serra e tendo como avós maternos, um muleiro, ou seja, tropeiro de mulas, levadas em grandes quantidades, do Rio Grande até São Paulo, em viagens que chegavam a durar seis meses e uma costureira, mestiça, de poucas palavras e de vida muito curta.

Teve por mãe uma morena cor de cuia, cabelos negros e revoltos e por pai um peão sem campo, branco, com a pele curtida em vermelho e eterno incomodado com a vida urbana.
Nasceu num dia frio e de muita chuva, na parte rural de uma cidadezinha muito pequena, em casa, sendo que o parto foi feito pelo próprio pai, - acostumado com o parir dos bichos, dizia, quando narrava o fato.

O parto teve uma pequena complicação, o cordão umbilical ficou preso ao pescoço, mas o pai não esmoreceu, puxou assim mesmo e tendo o cordão e a placenta vindo nas costas da criança, ele deitava falação, dizendo que o menino nascera, não só com aquilo, mas todo roxo e com uma mochila nas costas. O certo é que Joaquim sobreviveu bem, sem sequelas. Até os três anos foi um bebê normal, mas com essa idade, aconteceu pela primeira vez um fato que lhe acompanharia para sempre. Estivesse onde estivesse, em qualquer atividade, não sabe o que desencadeava o ato, mas o que acontecia, para quem estava de fora era muito estranho, ele ficava totalmente imóvel, como naquelas brincadeiras infantis de “estátua”, onde ao ouvir o comando, a criança de imediato se imobiliza, não importando a posição em que está. Era o que acontecia e não só isso, ele ficava com as pálpebras fechadas, mas observando-se de perto, os olhos mantinham um intenso movimento, rodopiando sem parar a ponto de mexer toda a pele da pálpebra, o rosto, sem expressão, contrastava com a boca, sempre em sorriso pétreo! As batidas do coração subiam até quase cento e cinquenta, apesar da pressão sanguinea permanecer estável. Essa imobilidade durava sempre de dez a quinze minutos e assim como aparecia, findava-se, com tudo voltando ao normal.
Se para quem estava de fora, o quadro era esse, para Joaquim, era muito diferente e ele lembra-se, com exatidão do primeiro e dos que se seguiram. Num repente, sua vida passava em sua frente, ilustrando todos os fatos acontecidos, tão nitidamente que pareciam mais reais do que quando aconteceram. Não era como no cinema, descobriu anos depois, quando assistiu o primeiro filme, o exemplo mais perto era a animação por quadros estáticos! Só que no seu caso, era como se cada quadro ficasse em sua frente por longo tempo e ele pudesse observar, criticar e de certa forma entender melhor o acontecido. Apesar de saber que a “pane”, como, adolescente, passou a chamar seu estado imóvel, durava no máximo quinze minutos, para ele era como se ficasse dias examinando detalhes de sua vida, como um arqueólogo, escavando um sítio!

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