“Abacateiro,
acataremos teu ato,
nós também somos do mato,
como o pato e o leão,
aguardaremos,
brincaremos no regato,
até que nos tragam frutos,
teu amor,
teu coração”!
O disco inteiro rodava em sua memória musical, pois não havia, à época, nenhum dispositivo individual para ouvir música, tempos depois, foi inventado um toca fitas pequeno, com fones de ouvido, para redenção dos aficionados, chamava-se Walkman, na seqüência apareceu o Discman, junto com o CD, mas isso é história e o final vocês a conhecem bem...!
O ônibus sacolejava nas estradas de trinta e três anos atrás, Joaquim estava só, indo embora para o mundo e para a fumaça embaçada do futuro, por falar em fumaça, era quase impossível enxergar o companheiro do lado, tamanha a densidade dela, no ônibus, era tão densa que poderia cortar-se com, com, com... sei lá, com o quê, já foram usadas todas as metáforas existentes para cortar o ar! No caso, ela provinha dos cigarros que todos os passageiros faziam questão de fumar, mas, além da fumarada, uma presença não saía de sua mente, ouvia a voz, via os grandes olhos azuis (como eram azuis, os olhos de todas as meninas daquela terra), sentia a boca na sua, pedindo para não ir. Mas, sobretudo, sentia o cheiro, de almíscar selvagem, daquilo que imaginava ser liberdade! Era ditadura, época de pessoas desaparecidas, de aulas obrigatórias de Moral e Cívica, de presidentes generais, impostos. Sua irmã mais velha viajara, às pressas, para o Chile e ele achava que era turismo... Todos tinham segredos, o dele, naquele momento, era fugir! Homero, um dos poucos amigos que ousava ter cabelo comprido, apresentou-os ao primeiro baseado, na praça fumou abraçado a ela, bebendo gim com tônica e ouvindo rock a todo o volume, todo o volume que um gravador cassete, a pilhas, podia!
- Acho que aquele momento eternizou-se nas pedras brancas de Carrara, que enfeavam e, provavelmente, ainda enfeiam, o anfiteatro inacabado da Praça da República! Pensou ele.
O ônibus parou numa obscura estação, sabe-se lá onde, desceu para comer um pastel e tomar uma coca, (adorava pastel e croquete de rodoviária)! Ainda faltavam quatro horas para o destino e ele viajando, dentro da viajem, se deparava com as incongruências geográficas do país, estava viajando dentro do estado, na pontinha do sul, do frio sul, desmensuradamente longe da civilização, já havia percorrido mais de trezentos quilômetros e simplesmente não havia saído de lugar algum! Naquele instante, naquela parada, ainda a sentia, aquela dos olhos azuis! Será que tinha voltado sozinha para casa ou estavam, todos, na praça bebendo, fumando e rindo. Teria lido a poesia que havia deixado para ela, escrita em papel seda, com sua acanhada letra pequena e trêmula?
Olhou o céu, a noite era tão escura que não viu estrelas em sua animação! Com espasmos, não de frio, beijou, qual fiel beija imagem da virgem, a fotografia três por quatro, que carregava na carteira, no bolso esquerdo traseiro, da sua azul e desbotada calça Lee (uma espécie de amuleto, pois não existia “índigo blues”, no Brasil, ele tinha uma Lee Americana, que uma amiga, madrinha, tinha trazido, de Orlando).
Sentiu, então, a presença dela por inteiro, não em pensamento, mas dentro de si, como um grito abafado, uma lágrima silenciosa, um tiro destroçando todo a fortaleza sonhada! Cinco horas de viagem e ele já não lembrava a cor do vestido que ela estava na despedida, do abraço que se ia! A memória parecia embotada e o vestido, junto com o belo corpo, desaparecia qual sépia imitando fotografia antiga! Fechou os olhos e nem lembra se respirou, morreu por algum tempo, sonhou com a mãe, no enterro de sua avó, explicando-lhe que os mortos viravam estrelas! Sentiu assustado, o ar da manhã e o sol batendo tímido na lataria amarela e azul do ônibus, sentiu um raio sem trovão, só o clarão. Abriu de vez a janela e o ar gélido da madrugada trocou de lugar com o enfumaçado e quente hálito do interior da condução, aspirou profundamente os vapores de Porto Alegre, viu as ruas semi-vazias, recém retomando a vida adormecida, desceu melancólico, pegou sua mala e em algum ponto, entre o ônibus e o táxi, esqueceu, por completo, dela!
Parou na Rua Felipe Camarão e premeu o interfone (nunca tinha visto um) e depois de instantes seculares, ouviu a voz do Beto, ainda rouco. Como a grana era quase nada, estava indo morar com um pessoal “cabeça”, que tinham vindo da mesma aldeia sua, alguns anos antes. Eram três irmãos, um fazia engenharia e filosofia, o outro arquitetura e filosofia e a menina, história e filosofia, na Universidade Federal! Os rapazes usavam barbas enormes (ruivas) e cabelos maiores ainda, vestiam-se, basicamente de calça jeans e camisetas e eram contra o governo! Pela primeira vez, via, ouvia e conversava com que abertamente dizia que era contra aquele governo, aliás, não chamava de governo e sim de ditadura, foi ouvindo!
Teve, em poucos meses, um curso diário de história, filosofia, sociologia e política! Clareou-se, então, muita coisa que não entendia e firmou, nele, um norte.
“Apesar de você
amanhã há de ser outro dia.
Eu pergunto a você onde vai se esconder
Da enorme euforia?
Como vai proibir
Quando o galo insistir em cantar?
Água nova brotando
E a gente se amando sem parar.”
Neste ritmo, intercalado por gritos de “abaixo a ditadura” participou, ainda em mil novecentos e setenta e seis, de seu primeiro ato público engajado politicamente, um ato pela abertura política! Em frente ao prédio da Faculdade de Filosofia da UFRGS, sentavam ao chão e cobriam a cabeça, quando a imprensa e “os infiltrados” agentes do temível DOPS fotografavam os participantes. Lembra com estremo realismo, tudo que passou aqueles dias, ouve o burburinho dos participantes e o bater das ferraduras dos cavalos da Brigada, no asfalto! Logo depois do ato, um chopinho no Alaska e discussões acaloradas sobre os discursos, sobre os policiais inflitrados, sobre a repercussão.
Ele começara a mudar, realmente, a sentir-se incomodado com o mundo em que vivia, há muito tempo, a urbe onde morara anterior e interiormente era que lhe deixara recados nada atrativos. Sentia-se diferente dos outros, mesmo dos amigos de turma, queria mais do Universo, do que o que se apresentava lá e que vivia nitidamente sem resposta, em seu coração. Por isso a pressa de ir embora! Mas, ainda não se sentia a vontade, parece que estava num estágio entre o que os outros queriam e o que ele pensava. Um rito de passagem. Todas as civilizações têm seus rituais de passagem para a idade adulta. Parece que esta passagem vem acontecendo cada vez mais tarde, em nossa cultura. Em todo caso, perto dos dezoito anos era, para a geração de Joaquim, a hora de buscar um, para usar palavreado da época, “lugar ao sol”.
Marcadores: abacateiro, Disco de vinil, ditadura, policiais


4 Comentários:
.___________querido Paulo
amei________"o abacateiro"
luzes
que se pretendem acesas_________caminhos que têm de ser abertos
o.__________vislunbrar mais além.muito.mais_________além...
...
amei de verdade:)
_______________///
beijO_______ternO
b.semana
Caro Paulo Vilmar
Faz dias que te enviei um "recuerdo". Gostaria de saber se o recebeste e se podes mo reenviar, pois, os meus arquivos que continham esse "recuerdo" se apagaram.
Se fizeres com os "recuerdos"o mesmo que fazes com os teus textos, será a máxima glória para este pobre marquez.
Um abraço
Pedro
Gostei imenso.
Fica bem, meu amigo.
Inspiração não te falta né!!! Graças a Deus rsrsrs .... adoro tudo que escreve, é sempre tão forte e frágil ao mesmo tempo
Abraços
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