I Parte - a curvatura do mundo
Ele tem apenas vinte e um anos e acredita ser fruto desta pequena vivência, não imagina, que sua história é paralela a da humanidade e que seu ser é fruto de milhares de anos. Seu nome, por exemplo, advém do caminho percorrido pelos seus mais recentes ancestrais, que percorreram praticamente toda a história da colonização do país:
O prenome Joaquim, de velha herança portuguesa, é, muito provavelmente, proveniente de ancestrais tão antigos que, há muito, já se desligaram da árvore genealógica original, formando apêndices sem ligação com nada, como frutos podres, caídos dos encorpados galhos, sem história, sem passado nem futuro, mas que em seu primórdio português, era o “designado por Deus”, derivado do hebraico, da origem do mundo.
Kehrwald, apesar de parecer sobrenome alemão, é de origem holandesa, vindo direto da antiga Rotterdam, Joost van den Kehrwald, poeta, admirador de Erasmo e, igualmente humanista, mantinha também a característica de escrever em Latim e não em sua própria língua, acompanhou Mauricio de Nassau, no intuito de administrar as conquistas holandesas no Brasil, tendo, segundo relatos orais, abandonado a missão, tão logo pisou em terra firme e sozinho, citando por inteiro o Elogio da Loucura, que sabia de cor,
Da mesma farinha são os escritores, que aspiram à fama imortal com a publicação de seus livros...O supra-sumo é cumularem-se de elogios recíprocos em epístolas e peças em versos.
O escritor, sob meus auspícios, desfruta um feliz delírio, e sem fadiga deixa fluir de sua pena tudo o que lhe passa pela cabeça, sabendo, aliás, que quanto mais fúteis forem suas futilidades, mais aplausos recolherá. Sempre é o mais inepto que encontra mais admiradores...”
descido até a foz do São Francisco, onde tornou-se uma espécie de pajé, entre os poderosos Tubinambás, após ter curado de uma tosse intermitente, cumulada com febre e delírios, uma jovem índia, pequena e feia, com uma infusão de folhas e depois de ter conseguido predizer com exatidão a época de chuvas. Migrou com os indígenas e então, sempre acompanhando-os, estabeleceu-se perto do rio São Mateus ou rio Cricarê na região onde hoje fica o Espírito Santo, juntamente com a índia Tupiniquim, que curara, por quem se apaixonara e com a qual teve diversos filhos, todos batizados na tradição da Igreja Luterana, que ele tentava, propagar pelos trópicos. Teve tamanho poder que um de seus fihos, fez o caminho inverso e foi estudar na Europa, em Rotterdam, para onde foi, levando papagaios, cocares, penas e uma carta, escrita pelo pai, em forma de poesia, aos seus tios, solicitando hospedagem e auxílio nos estudos, retornou ao Brasil, depois de alguns anos e fixou residência na região de Laguna, onde havia ganhado umas terras, do donatário da capitania de Santana, Dom Pero Lopes de Souza, que conhecera, através do filho deste, companheiro de estudos, em Paris. Seguindo o exemplo do pai, casou-se com uma índia, esta, de origem Caiouás – Guarani, vinda da Argentina.
O sobrenome Silva percorreu caminho diverso, mas trouxe em seu bojo, o sangue índio, o negro, o português e neste caso, o mouro, da época da invasão, na Peninsula Ibérica. Primeiro, o Silva português, descendente da irmã de Guterre Aldereta da Silva , filho primogênito de Dom Peladio Guterres, governador de Alva e neto de Dom Guterres Pais. Guterre que era o senhor da Torre da Silva, em Alderete, lutou na tomada de Coimbra, junto com Dom Fernando I, rei de Castela, e, por isso, passou a ser conselheiro do reino, alcaide-mór do castelo de Santa Eulália, senhor de Alderete e do Porto da Figueira. Dona Costança ou Comstamça, irmã de Guterre, apaixonou-se, durante a invasão moura, por um irmão do segundo vice-rei mouro na Península Ibérica Adbul-el Azziz, chamado Abduel. Os dois fugiram para o norte de Portugal, conhecida como Alto trás-os-montes e, tendo se casado na fé católica, ele convertido, acabou adotando o sobrenome de sua amada Constança. Séculos depois, já no Brasil, um descendente destes Silva, casou-se, com uma índia Potiguara, da terra de Acajutibiró, que segundo a tradição, tornou-se Silva, também.
Mais um século e outro descendente destes Silva, enamorado por uma negra de descendência Malinké, nascida em Miniambaladougou, na atual Guiné, reconhece a paternidade dos cinco filhos desta e acrescenta-lhes o da Silva, como sobrenome. Por fim, já no século XX e fruto desta intrincada cadeia de relacionamentos, oficiais ou não, nasce então, Joaquim Keharwald Silva da Silva, brasileiro, neto por parte de pai, de fazendeiros donos de sesmaria, perto da divisa Santa Catarina e Rio Grande do Sul, nos Campos de Cima da Serra e tendo como avós maternos, um muleiro, ou seja, tropeiro de mulas, levadas em grandes quantidades, do Rio Grande até São Paulo, em viagens que chegavam a durar seis meses e uma costureira, mestiça, de poucas palavras e de vida muito curta.
Teve por mãe uma morena cor de cuia, cabelos negros e revoltos e por pai um peão sem campo, branco, com a pele curtida em vermelho e eterno incomodado com a vida urbana.
Nasceu num dia frio e de muita chuva, na parte rural de uma cidadezinha muito pequena, em casa, sendo que o parto foi feito pelo próprio pai, - acostumado com o parir dos bichos, dizia, quando narrava o fato.
O parto teve uma pequena complicação, o cordão umbilical ficou preso ao pescoço, mas o pai não esmoreceu, puxou assim mesmo e tendo o cordão e a placenta vindo nas costas da criança, ele deitava falação, dizendo que o menino nascera, não só com aquilo, mas todo roxo e com uma mochila nas costas. O certo é que Joaquim sobreviveu bem, sem sequelas. Até os três anos foi um bebê normal, mas com essa idade, aconteceu pela primeira vez um fato que lhe acompanharia para sempre. Estivesse onde estivesse, em qualquer atividade, não sabe o que desencadeava o ato, mas o que acontecia, para quem estava de fora era muito estranho, ele ficava totalmente imóvel, como naquelas brincadeiras infantis de “estátua”, onde ao ouvir o comando, a criança de imediato se imobiliza, não importando a posição em que está. Era o que acontecia e não só isso, ele ficava com as pálpebras fechadas, mas observando-se de perto, os olhos mantinham um intenso movimento, rodopiando sem parar a ponto de mexer toda a pele da pálpebra, o rosto, sem expressão, contrastava com a boca, sempre em sorriso pétreo! As batidas do coração subiam até quase cento e cinquenta, apesar da pressão sanguinea permanecer estável. Essa imobilidade durava sempre de dez a quinze minutos e assim como aparecia, findava-se, com tudo voltando ao normal. Se para quem estava de fora, o quadro era esse, para Joaquim, era muito diferente e ele lembra-se, com exatidão do primeiro e dos que se seguiram. Num repente, sua vida passava em sua frente, ilustrando todos os fatos acontecidos, tão nitidamente que pareciam mais reais do que quando aconteceram. Não era como no cinema, descobriu anos depois, quando assistiu o primeiro filme, o exemplo mais perto era a animação por quadros estáticos! Só que no seu caso, era como se cada quadro ficasse em sua frente por longo tempo e ele pudesse observar, criticar e de certa forma entender melhor o acontecido. Apesar de saber que a “pane”, como, adolescente, passou a chamar seu estado imóvel, durava no máximo quinze minutos, para ele era como se ficasse dias examinando detalhes de sua vida, como um arqueólogo, escavando um sítio!
Marcadores: ancestrais, arqueologia, história, Joaquim


4 Comentários:
Olha, Admirável Paulo:
Penso que o conteúdo é perfeito. Entrechocam-se línguas, pormenores significativos e um início fabuloso de grande riqueza literária. A narração preenche e tem contornos humanos profundos e majestoso de quem manuseia perfeitamente o português erudito.
Seguirei com atenção a história que me parece remetermos-nos para o fantástico, o sonho, as gentes e o humanismo vivencial descrito fantasticamente.
Parabéns sinceros.
É a minha opinião pessoal.
Abraço amigo de admiração grandiosa.
Sempre a admirar-te e ao teu talento.
pena
Gostei muito.
Em primeiro lugar quero aqui aplaudir esta iniciativa, rara (ou única) na blogosfera. É uma ideia genial, a publicação de um livro (ou texto grande...) em "tranches", ou seja, quase como em episódios, o que de facto permite aos leitores irem acompanhando com um certo suspense o desenrolar da história sem se tornar enfadonho devido à extensão do texto.
Da minha fraca e pouco habilitada capacidade como crítico literário, posso dizer (neste caso escrever) que estou a gostar bastante desta I parte, até porque já andam por aí Silvas misturados. Será que não aparecerá nenhum Ferreira?
Força aí na pena, que isto tem pernas para andar!
Saudações do Marreta.
Atualmente estou lendo AS VINHAS DA IRA e apesar de ser uma ótima leitura não deixo de dar uma olhadinha aqui para ver o que tem de novo e, realmente, já não sei de qual das duas leituras estou gostando mais. PARABÉNS pela iniciativa.
Querido se você tiver mais informações sobre o tal holandês Kehrwald, ou da onde você tirou essa informação. Ficaria muito agradecido.
Meu email marcelokehrwald@gmail.com
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